Bioarquitetura: Um olhar em busca da essência

A Bioarquitetura está inserida nesta nova e ao mesmo tempo ancestral idéia de integrar o Fazer Humano com o Meio ambiente em que se vive, estabelecendo com ele uma Sinergia, uma cooperação entre Homem e Natureza, objetivando uma vida mais saudável para a humanidade e também para o planeta.

O abrigo construído pelo Homem deve ser compreendido como algo vivo com seu metabolismo próprio, que vai interagir com o Homem e o meio em que está , não só na fase de construção, mas principalmente em seu uso, para isso devem ser aplicados os conceitos dessa sinergia em todo o processo que envolve a construção, no Pensar, no Fazer e no Usar, entende-se também que toda construção é uma intervenção ao meio ambiente, para tanto ela deve causar o mínimo possível de impacto neste.

Este processo tem que ser sustentável e saudável empregando recursos renováveis, soluções eficientes e economicamente viáveis.

Dois Olhares – Caminhos em concordância 
Se por um lado para atingir esta integração e sinergia, teremos que desenvolver e utilizar Novas Tecnologias como:

– Reciclagem e técnicas de reuso de materiais.

– Pesquisa de novos produtos à base de matérias-primas naturais não agressivas e renováveis.

– Desenvolvimento de novas maneiras de utilizar materiais de mercado com características agressivas ao meio ambiente diminuindo a quantidade empregada ( cimento, madeira, PVC…).

– Sistemas energéticos com recursos naturais locais( solar, eólico, biodigestor…).

– Novas visões de gestão da obra e da manutenção dos edifícios.

Por outro lado teremos que relembrar as tecnologias de construção Ancestrais e Vernaculares, pois estas tecnologias vivem a essência dessa sinergia do Fazer Humano com o Meio Ambiente, em sua forma, materiais e significados.

Este olhar à essência do Fazer da Arquitetura nos trará uma maior compreensão do nosso fazer atual, visa um equilíbrio, unindo a sabedoria das tradições ancestrais e milenares com os novos conhecimentos e tecnologias adquiridas durante nossa história, resultando em um novo Fazer consciente que resgata o valor dos trabalhos manuais e dos materiais naturais renováveis e usa com mais consciência os produtos industriais.

O Saber – Fazer 
Uma das conquistas evolutivas de nossa espécie mais significativas foi a habilidade manual, durante um longo período de evolução, o Homem suprindo algumas dificuldades diante de outros animais se levantou tornando-se um bípede, com isso liberou e especializou suas mãos, transformando-as em uma maravilhosa ferramenta, que é capaz de utilizar, mas principalmente fabricar ferramentas e objetos, fazer nossos abrigos, com elas também nos comunicamos, nos acariciamos, nos curamos…nos fizemos humanos.

O fazer com as mãos pode ser uma experiência profundamente transformadora, como nos descreve preciosamente um dos maiores escultores do século XX:
“Quando meus dedos apalpam a argila, sinto-me caminhando novamente pelas ruas de Stampa, com os sapatos enlameados, regressando da escola, e as montanhas voltam a se ondular à minha volta com suas ravinas que me levam até as alturas em direção aos balcões de xisto, sílex ou nuvens; Torrentes de energia começam a fluir entre as palmas de minhas mãos”
Alberto Giacometti

O ato de criação de uma escultura descrito por Giacometti acima, nos conta algo que só a experiência do Fazer pode proporcionar: sensações, lembranças, emoções, corpo, mente e espírito estão unos com a argila naquele momento de criação, onde o barro não será o único a passar por uma transformação, também o indivíduo neste ato de “fazer” se transformará.

O Abrigo Ancestral 
O abrigo ancestral tem a função de proteger o Homem do clima – ventos, chuvas, neve e calor, de animais e de outros homens, mas existem outras proteções que não são tão fáceis de serem compreendidas, construir um abrigo envolve uma certa cosmogonia, o abrigo é um microcosmo onde seu habitante encontra conforto e segurança, um novo útero, onde ele expressa sua identidade e cria seu universo doméstico ideal (minha casa-meu paraíso), dedicado à sua memória e a memória do grupo que pertence, construída com materiais locais e seguindo a geografia e a cultura do lugar.

– A Oca Xinguana ( um abrigo ancestral)

O índio assim como o homem ancestral vive na natureza, da natureza e para a natureza, integrado sempre à ela e isto se evidencia na construção de seu Abrigo.

A oca, abrigo dos índios moradores do Parque Nacional do Xingu, situado no coração do Brasil, são estruturas maravilhosas, imponentes e ao mesmo tempo integradas ao meio, tem em média 40 metros de comprimento e 9 metros de altura, enormes “casulos” que abrigam até 70 pessoas da mesma família.

A construção leva meses de trabalho duro e conta com a participação de todos, se adapta perfeitamente às exigências do clima tropical, mantendo se frescas no Verão escaldante e impermeável e aquecida no Inverno chuvoso, graças à uma espessa camada de sapé (colhido na época e no tamanho certo e sempre na Lua minguante)e conta com um engenhoso vão acima da cobertura, permitindo a saída do ar quente e a fumaça das fogueiras.

Do interior da Mata se busca as pesadas vigas de madeira roliça, centenas de longas varas para estruturar a pesada camada de sapé e muito cipó para as amarrações.

Cada aldeia possui de oito a nove ocas, dispostas sempre em circulo, formando uma enorme praça que é meticulosamente limpa todos os dias, no centro se encontra uma construção conhecida como casa das flautas, por se guardar lá as flautas sagradas da aldeia e a cultura do povo, na praça acontece a vida social e ritual da aldeia, organizada por caminhos aparentemente invisíveis e atrás das ocas acontece a vida privada das famílias.

O sentido de Belo para o índio está no que é bem feito, o que foi feito com capricho, delicadeza e respeito à sua cultura, em uma sofisticada simplicidade sua oca é bela!

– O Lugar cria a Arquitetura e a Arquitetura recria o Lugar
Para fazermos uma leitura das tradições ancestrais e vernaculares de construir veremos que estas são o resultado do lugar onde estão, a Geografia deste, seu clima, vegetação, relevo, solo… estas condições determinarão os materiais e os recursos disponíveis para as construções, e as condições climáticas à serem satisfeitas, isto resultou nas tecnologias que esses povos tiveram que desenvolver (o saber fazer) para trabalhar estes materiais do lugar e as soluções arquitetônicas que foram encontradas para adequar os abrigos ao clima.

Mas as condições humanas também são determinantes para se criar a tipologia desta arquitetura, a estrutura social dos povos, sua cultura, tradição e sua expressão estética formarão o imaginário do construir este microcosmo(abrigo-aldeia) dentro de um macrocosmo (natureza-meio ambiente) formando com ele uma relação sinérgica e não exploratória.

É importante entendermos essas relações para preservarmos a memória da Arquitetura desses povos e de nossas próprias cidades, São Paulo por exemplo foi construída inteiramente até meados do século XIX(por volta de1860) com terra crua na técnica da taipa de mão e principalmente na taipa de pilão, sendo somente inteiramente substituída no final do século XIX pela alvenaria de tijolos cozidos, própria do período da cafeicultura Paulista, desta Arquitetura com terra crua não restou quase nenhuma construção, sendo assim nossa memória desaparece, nosso imaginário está desfalcado, nossa cultura está falha.

Natureza – Provedora e Inspiradora 
A Natureza além de prover todos os materiais e recursos necessários a nossa sobrevivência, também é fonte de inspiração, quando observamos por exemplo uma flor, descobrimos uma perfeição que se manifesta nas proporções, na cor, no seu padrão e lógica natural de crescimento, que por mais que se repita esse padrão nunca encontrará uma flor idêntica a outra.

Na observação das estruturas e formas naturais encontramos soluções refinadas para todos os elementos de Arquitetura ( vedação, cobertura, estrutura, acabamentos…).

Em sua complexa geometria, encontramos matemática pura – seções áureas nos processos de crescimento, triângulo de pitágoras em suas simetrias e espirais logarítimicas num caracol. Em nossas construções devemos observar o Sol fonte energética primordial, o Relevo e sua linguagem, respeitar os cursos e fontes de água.

Nosso Abrigo integrado a essa natureza é algo vivo tem que respirar, não pode ser impermeável, tem que permitir uma permeabilidade do ar em seu interior e da água em seu entorno, nosso abrigo é a extensão de nós mesmos, possui um metabolismo dinâmico com entradas e saídas de material e energia que devem ser administradas visando uma sustentabilidade de recursos.

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